A cada 20 de junho, o Dia Mundial do Refugiado é uma data para a reflexão sobre a situação em que se encontram pessoas forçadas a abandonar seus países de origem devido a perseguições, conflitos armados e crises humanitárias. Há pelo menos cinco anos, o Brasil é um dos lugares para onde milhares de venezuelanos se destinam em busca de novas oportunidades.
Essa jornada se inicia a pé, na fronteira entre Santa Elena de Uairén e Pacaraima (RR). Diariamente, cerca de 750 pessoas atravessam para o lado brasileiro carregando o que coube em malas, novos sonhos e expectativas. Encontrar parentes e amigos que já estão no país, conseguir um emprego e conquistar estabilidade financeira são alguns dos anseios.
Ponto principal de entrada desta população, o objetivo é chegar a Boa Vista (RR), cidade que abriga a resposta humanitária desenvolvida a partir da crise migratória venezuelana. Depois de passarem pela fronteira, para chegar à capital, são 200 km. Boa Vista tem cerca de 375.000 habitantes e atualmente acolhe mais de 30.000 venezuelanos.
Para Yubier Alcadio, beneficiário de um projeto de gestão de abrigos, no Brasil ele encontrou dignidade. “Aqui as crianças têm roupa, comida, com o que brincar. O abrigo nos dá proteção. Na rua não há segurança, não há comida. Os abrigos e o trabalho da AVSI Brasil trazem a nós a comida de cada dia, um teto na cabeça, segurança para nossos filhos. Os abrigos são muito impactantes na vida do venezuelano”, pontua.
Organizações da sociedade civil, como a AVSI Brasil, desempenham relevante papel como sócias nessa missão. O trabalho desenvolvido nos abrigos pode chegar a oferecer um caminho de integração e acompanhamento, por um período de um a três meses, em diferentes cidades brasileiras por meio da hospedagem, alimentação, itens básicos de sobrevivência nessas cidades, incluindo oportunidades de emprego, em parceria com empresas locais.
Nas tendas da Operação Acolhida, a oferta de serviços é variada. Há guichês para pedidos de residência e refúgio, para emissão de documentos, como CPF e cartão SUS, para cadastro no sistema de emprego. Uma força-tarefa atua nesse primeiro contato do migrante com o Brasil para facilitar a entrada e socialização dos venezuelanos. O país é o quinto destino mais procurado por esses migrantes para viver.
Operação Acolhida
Atualmente, dos 12 centros de acolhida existentes, a AVSI é responsável pela gestão de 06 abrigos em Boa vista (Roraima), sendo 01 indígena e 05 não indígenas, além de atuar no apoio à regularização migratória dos migrantes e refugiados na fronteira do país, em Pacaraima (RR). As equipes da organização se revezam na gestão dos abrigos, atuando 24 horas, todos os dias.
A instituição não trabalha somente com o primeiro acolhimento. O objetivo é acompanhar famílias na integração em outras cidades, com a hospitalidade, aulas de português, iniciativas com as empresas locais para oferecerem empregos. A ação da AVSI faz parte de um programa de recolocação mais amplo, que prevê a transferência dos venezuelanos a outros estados, realizada com Acnur e o Governo Federal.
Famílias como a de Mario José tiveram a vida transformada com a resposta humanitária recebida no Brasil. Eles foram atendidos no posto de triagem da Operação Acolhida, em Boa Vista, onde receberam os primeiros cuidados, como vacinas, regularização de documentos e proteção.
Foi lá que Mário soube da oportunidade de interiorização para trabalhar em uma fábrica de móveis em Concórdia (SC). Depois de ser aprovado no processo seletivo, a família foi interiorizada pelo projeto Acolhidos por meio do trabalho, que garantiu moradia temporária e acompanhamento social nos primeiros meses.
“Estamos muito felizes e totalmente integrados aqui com a comunidade. Minha esposa estava grávida quando chegamos aqui e tivemos um atendimento muito bom para o nascimento do bebê. Meu cunhado também conseguiu emprego na mesma empresa e, como dividimos as despesas, conseguimos garantir uma boa reserva para viver com tranquilidade”, diz Mario José.
Acolhidos por Meio do Trabalho
Além da gestão de abrigos, a AVSI também contribui para que venezuelanos migrantes e refugiados tenham acesso ao trabalho formal, junto a empresas privadas. O projeto “Acolhidos por Meio do Trabalho” apoia a integração socioeconômica de venezuelanos em todo o Brasil. A iniciativa facilita a interiorização voluntária daqueles que estão nos centros de acolhida em Roraima.
A AVSI Brasil auxilia na seleção dos candidatos à vaga de emprego, disponibiliza até três meses de moradia para os selecionados e suas famílias, além de fornecer assistência social nos municípios de destino, de forma a facilitar a adaptação dos venezuelanos junto à comunidade local, o diálogo com a empresa e a permanência do contratado no novo ambiente de trabalho.
Desde que foi implementado, o projeto Acolhidos intermediou a interiorização de mais de 1.000 venezuelanos, de Roraima para diversos estados brasileiros e o Distrito Federal. Para a gerente do Acolhidos, Thais Braga, o resultado é bastante positivo “Nossa primeira interiorização foi realizada no início de fevereiro de 2019. Intermediamos a contratação de 67 migrantes e refugiados para atuarem em uma indústria frigorífica na cidade de Seara, no Oeste de Santa Catarina – em uma ação conjunta com o Serviço Jesuítas para Migrantes e Refugiados. Junto aos contratados, outras 19 pessoas, membros familiares, também embarcaram para a nova cidade, totalizando neste primeiro grupo, 86 pessoas”, relembra.
Para Thais, o sucesso da primeira interiorização marcava o prenúncio de novas ações pelo Brasil, já que outras empresas também sinalizavam o interesse na contratação de pessoal. A segunda interiorização ocorreu seis meses depois, em parceria com a organização Refúgio 343, para a contratação de dez atendentes para uma rede de restaurante fast-food, em Brasília. “Desde então, felizmente, conseguimos realizar uma série de interiorizações pelo trabalho para diversos estados do Brasil”, destaca Thais.


